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Artigo da Dra Edilma Barbosa aborda de forma contemporânea temática feminina

A Revista Bioética, publicação do Conselho Federal de Medicina, publicou em 2008 artigo de autoria da Dra Edilma de Albuquerque Lins Barbosa e Dra Ieda Teresinha Verreschi, intitulado Bioética: A construção de um mundo mais igualitário e justo entre mulheres e homens. Vale a pena conferir o trabalho (portal do CFM/ título e autoria). Logo no texto da apresentação é possível perceber o quanto o tema, da forma como foi colocado, se mantém atual. Confira:

Trazer a nossos leitores um número sobre Bioética e Feminismo expressa não apenas o reconhecimento do Conselho Editorial da Revista Bioética a respeito da contribuição que os estudos de gênero, sob a perspectiva das mulheres, trouxeram para a reflexão e análise no campo da bioética, mas, especialmente, a contribuição que o próprio feminismo, como movimento social proporcionou à vida de homens e mulheres ao longo do século XX. Embora a consolidação dessas transformações na maneira como a sociedade percebe as mulheres ainda esteja em curso, já é inegável que, atualmente, as mulheres vêm conquistando o direito de decidir sobre sua vida, como atesta a Conselheira Edilma de Albuquerque Lins Barbosa, representante no CFM do Estado de Alagoas: “O domínio do homem sobre a mulher baseou-se na perspectiva androcêntrica, que lhe concedia papel secundário na dinâmica social, classificando-a como inferior. Essa visão, que qualificava a mulher de pecadora e tentadora por ‘natureza’ (leia-se objeto sexual), perdura até os dias de hoje em diversas sociedades, nas quais fatores históricos, culturais, socioeconômicos e religiosos coadunam-se na construção de padrões de comportamento desiguais para cada um dos sexos. Esses padrões faziam parte (ou o fazem ainda hoje) do imaginário social sobre as relações de gênero também no Brasil. Entretanto, nas últimas quatro décadas no século XX a mulher começou a superar tais estereótipos, saindo desse mundo opressivo e deixando de ser um mero instrumento de manipulação e ‘uso’ do homem. Com certeza a explosão da evolução das mulheres no Brasil nessas décadas, só ocorreu porque elas foram acumulando conhecimento, estudando para desenvolver tarefas que eram do domínio exclusivo dos homens, que centralizavam totalmente todos os melhores postos de trabalho, ocupando as posições mais destacadas na sociedade. Reflete esse processo de crescimento das mulheres o fato de na década de 60 poucas delas terem escolaridade de nível superior e, atualmente, serem a maioria, inclusive nos cursos de pós-graduação.

Mesmo que esse fenômeno ainda esteja restrito a algumas classes e setores da sociedade, o crescimento da mulher tornou-se evidente no país nos últimos anos. Deixando de ser somente a cuidadora do lar, do marido e dos filhos, de depender legal e financeiramente do homem e questionando, inclusive, a identidade associada exclusivamente à maternidade e à capacidade de procriar, as mulheres brasileiras estão ‘indo à luta’ em busca de seu crescimento extramuros, em um processo que se revela fundamental também para a consolidação da justiça social. Vivemos grandes transformações tecnológicas que despertam sentimentos contraditórios. Frente a elas, a importância de cuidar melhor dos seres vivos para que se viva melhor, torna-se imprescindível: a humanidade tem que criar uma sociedade global responsável; consciente de que o avanço cientifico e tecnológico, em um mundo capitalista onde a lógica é o lucro, não pode se dar às custas dos direitos de todos e, principalmente, do meio ambiente. Há que se ter responsabilidade com a qualidade do ar, da terra, da água, evitando, assim, prejudicar todos os seres vivos do planeta bem como as futuras gerações. Frente a tais dilemas morais, as mulheres vêm mostrando que são capazes de criar uma sociedade mais justa, com equidade, solidariedade e mais calor humano. Contribuindo para a melhor qualidade de vida, combatendo e denunciando as violências e as injustiças sociais, as mulheres mostram que podem desenhar seu novo lugar no mundo. Sem perder a sensibilidade, sem perder a sexualidade, sem perder, sequer, o direito a maternidade... Fazendo a História com competência”. Mas a relação entre bioética e feminismo não se esgota no levantamento das consequências da milenar subordinação das mulheres aos homens e, nem mesmo no estudo criterioso das políticas públicas e medidas afirmativas para reverter essa situação. À medida que cresce a escolaridade feminina e que mais e mais mulheres ingressam e conquistam postos importantes no mercado de trabalho observa-se uma mudança também na forma como as questões são abordadas nas diferentes áreas do conhecimento. Se tal transformação pode ser facilmente percebida por um olhar sensível à análise de gênero é ainda mais nítida no campo da bioética, no qual os conceitos refletem valores e moralidades; modos de sentir e pensar sobre o mundo e as relações humanas, como explica Ieda Verreschi, professora associada na área de Endocrinologia da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e Conselheira Cremesp: “Afora o amor entre o homem e a mulher no qual concorrem indivisivelmente corpo e alma e se abre ao ser humano uma promessa de felicidade que parece irresistível, como exorta Bento XVI na Carta Encíclica sobre o amor cristão, de 2005, difícil pensar em amor ao próximo ou à coletividade no mundo atual dominado pela tecnologia, inspirado no hedonismo e confiante no relativismo. Há espaço para este amor no julgamento bioético, na resolução de dilemas? Em caso positivo seria este o espaço para uma bioética feminina? Estaria ela ancorada nas discussões sobre a força e o valor da vida humana onde residem as profundas diferenças enquanto a Bioética tem seu foco no progresso da ciência a tecnologia ignora o caminho no qual o desenvolvimento humano se desloca e desapropria povos, enquanto degrada a terra, ...ampliam-se desigualdades e fazendo desaparecer a segurança social. Sob o discurso dos direitos humanos à propriedade e ao domínio da natureza, vive-se numa terra poluída esgotada de recursos. Progride-se a passos largos num ambiente indutor de doenças, sujeitos não ao ritmo dos próprios corações, mas à circulação do capital global e da violência. Essa afirmação, que traduz livremente a Conferência de Mary C. Rawlinson, apresentada 9th World Congress of Bioethics, na Croácia, em 2008, leva a pensar na própria humanidade e em como progride neste cenário. Apesar da abrangência, parece que em saúde a reflexão bioética concentra-se na proteção da autonomia individual. Em nome desta autonomia praticam-se atos que comprometem o futuro da espécie humana, seja no descarte, produção e seleção de embriões, seja na purificação genética. A mulher, naturalmente geradora de vida, reduz-se a objeto. Em nome de ‘direitos reprodutivos’ salvaguardando o direito ao próprio corpo, por meio do aborto e dos pesticidas humanos, movimentos sociais e autoridades sanitárias transformam-na em trincheira desta guerra química contra a humanidade, como adverte Lejeune em Uma reflexión ética sobre la medicina prenatal. Se a Primeira Grande Guerra transformou o feminismo de princípios em movimento factual, abrindo caminho para a emancipação das mulheres e para a sua profissionalização, hoje espera-se que a dedicação e a vivência feminina dos dilemas bioéticos, gerados pelos avanços tecnológicos, construam a paz no século XXI”. Apoiados por essas insignes representantes da classe médica esperamos que esse número da Revista Bioética propicie a reflexão e estimule a construção de um mundo mais igualitário e justo entre mulheres e homens. Bom proveito!

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