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Como tem sido lidar com a pandemia?

O presidente do Sinmed, Dr Marcos Holanda, faz um balanço desse período desafiador pelo qual a classe médica está passando ao lidar com o coronavírus. Confiram...  

Como está a saúde mental dos profissionais da saúde que trabalham nas salas de emergência e UTIs de hospitais lidando com o novo coronavírus em Alagoas?

Está entre o desafio de lidar com algo desconhecido, e a ansiedade em apresentar resolutividade. Somado a isso tem desconforto da sensação de impotência, as limitações, o medo de nos contaminar, e o estresse com a demanda crescente de casos. Ou seja, o abalo emocional é intenso. Ficamos aflitos e com outros sentimentos sofríveis. É realmente muito estranho, inusitado, e apesar de tudo há uma cobrança interna e externa para mantermos a serenidade, mas nós também somos humanos e nos estressamos igual a qualquer outra pessoa. Nosso campo emocional oscila diante das turbulências, igual acontece com qualquer pessoa. Estamos num clima tenso como nunca estivemos antes. Se não houver um revezamento, um sistema de rodízio, em poucos dias muitos colegas não vão suportar a carga de trabalho. O organismo pode chegar à exaustão, e desenvolver sintomas para forçar o descanso quando a gente insiste em continuar.

Nossa responsabilidade é gigantesca, e nos preocupamos não somente com os pacientes, mas também com cada membro da equipe, observando sintomas, medidas protetivas, tudo, enfim, ao mesmo tempo, além de consultarmos a literatura médica para atualização. No nível de estresse que estamos, não adianta terapia psicológica on line. Disponibilizar um telefone ou canal interativo é inócuo. Precisamos de tratamento presencial personalizado, com técnicas que favoreçam relaxarmos da cabeça aos pés, por dentro e por fora. Nosso corpo está travado, e nossa alma, densa.    

 

 O que o Sinmed está fazendo para acompanhar esses casos e quais providências está tomando?

O Sinmed apresentou queixa e pediu providência junto ao Ministério Público do Trabalho. Estamos no aguardo. Nesse momento a tensão é tanta que não bastam palavras de alento, conselhos, orientações, meditação on line. Precisamos de uma assistência mais completa, como terapias integrativas que agregam bioenergética, harmonização dos chakras, psicoterapia transpessoal, hipnose, massoterapia, psiquiatria, tudo junto. O poder público deveria patrocinar um projeto desse porte para atender os profissionais da saúde, ao invés de buscar voluntários.

Outra coisa que nos preocupava era a situação das médicas gestantes e lactantes. Elas estavam sendo mantidas na linha de frente. Nós acionamos nosso Departamento Jurídico e conseguimos afastá-las através de liminar concedida pela desembargadora Eliane Arôxa, já que os gestores, espontaneamente, não estavam concedendo esse direito. Tivemos que brigar na justiça, felizmente saímos vitoriosos, mas ainda estamos na expectativa do afastamento dos mais idosos. O ideal é que todos os médicos acima de 60 anos sejam substituídos pelos mais jovens.

 Acredita que passada essa pandemia muitos profissionais deverão se afastar do trabalho porque desenvolveram doenças como ansiedade e depressão?

Ansiedade e estresse, dependendo do grau e intensidade, geralmente ocasionam depressão. É como um efeito dominó, daí a recomendação universal de se intercalar o trabalho com o lazer, o descanso, o entretenimento. Toda carga exaustiva de trabalho é contraindicada porque gera adoecimento.  Portanto, é de se esperar que após a pandemia muitos colegas apresentem transtornos psiquiátricos conforme a predisposição de cada um, pode ser não apenas depressão, mas também síndrome do pânico, amnésia transitória, lapso de memória ou outros sintomas que sinalizam necessidade de repouso, para finalmente, depois de um bom tratamento, recuperar a condição de saúde que tinha, e  voltar às atividades.

Quantos médicos, aproximadamente, pediram afastamento por suspeita de COVID-19?  

Não temos estatística exata. Até o último dia 13/5  a Sesau disse que 112 médicos da rede estadual foram afastados, mas o Sinmed acha que o número é maior. Não nos compete fazer esse acompanhamento rigoroso. Arrisco dizer que entre 20 a 30% dos médicos de Alagoas já adoeceram – a Secretaria de Saúde do Estado diz que dos 112 médicos afastados somente 20 testaram positivo. Pelo menos no HGE, onde trabalho, 15 cirurgiões testaram positivo para COVID-19, fora outros tantos da área clínica. No Arthur Ramos temos três casos, e no  Veredas um anestesista está afastado; na Santa Casa tem um cardiologista também afastado, e uma médica faleceu em decorrência do COVID. Em outras unidades de saúde também há relatos de médicos vítimas da pandemia, mas, como já disse, não temos os números precisos, enfim, no geral creio que a margem oscila entre 20 a 30%. Se incluirmos todos os profissionais da área da saúde a estatística deve subir para 50%, e a situação pode se agravar se as pessoas não cumprirem a rigor o isolamento social e demais medidas protetivas.

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